domingo, 19 de fevereiro de 2012

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Hoje eu acordei antes das oito. Coisa de quem não tá legal, né? Aí comecei a pirar total, porque sonhei que meu ex namorado me apresentava a filha bebê dele. Me fazia pegar a menina no colo. E me dizia que ia me amar pra sempre, apesar de tudo. Dizia isso e de repente a ligação caia. Ué, mas ele não tava ao vivo? Acordei achando melhor arrumar logo a cama, tomar logo um chá mate ou água de coco. Tem dor que é melhor não coçar a coceira. Tem coceira que é uma ferida maior do que você imagina. Vai que a coisa te engole e você vira refém da ferida e não um ser com ferida. Um ser dentro da ferida. E morre afogada nadando no pus. E enfim, acordei. Aí trabalhei bastante no meu roteiro. Adiantei boa parte dele. Afinal, amanhã vou pro Rio. E quando penso que vou fazer tudo aquilo. Aquilo de aturar aeroporto, avião, táxi carioca. Aturar tudo aquilo sem ter você. Aí fico aqui imaginando que merda vou inventar pra não ir. Porque é tão mais fácil aturar a vida sabendo que tem você. Agora sem você, meu amigo, a coisa é feia. Realmente feia. Mas aí minha mãe me chamou pra almoçar. Olha que bom. E eu fui feliz. Porque você pode imaginar como eu tava sem você e sem minha mãe. Então a coisa melhorou um pouco. Depois fui com o Kiko visitar um amigo roqueiro, doido e budista que recebeu um lama francês em casa. E o cara falou sobre karma. E eu fui ficando realmente desesperada porque aconteceu tanta coisa maluca nesse encontro. E eu colecionava vida pra te encher dela depois. Agora encho quem ou o quê? O que eu faço com a vida? O que eu faço com a graça da vida? O lama falou que matar bicho dava karma ruim. E uma mulher, você não vai acreditar, mas uma mulher perguntou se matar mosquito da dengue dava karma ruim. E eu queria tanto te contar. Você tá rindo, não tá? É tão bom quando você ri. Olha, tudo bem, eu sei, eu entendi. Mas é foda, é tão foda. Depois comi pão de queijo com suco de morango. Numa padaria aqui perto. Ah, e ontem. Fui na livraria POP. Tão legal lá. E tavam todos os meus amigos. A Letícia perdeu o emprego e estava super engraçada mandando um palavrão atrás do outro. A Ana vai cantar semana que vem. E eu queria te contar. Sei lá porquê. Essa hora que a gente se contava me dava força, sabe? Me dava gostosinho na alma. E sabe o quê? Descobri que dá pra ir a pé na creperia aqui da rua. E tem vista bonita. Fui ontem. Tava calor. E a gente não fez isso. A gente não fez tanta coisa. Mas o que dói mesmo é esse finalzinho de dia. A hora que eu validava a minha existência com a sua atenção. A hora que eu representava o mundo para a única platéia que me interessa. A hora que eu me irritava um pouco, porque fazia parte. E então tudo isso que pensei e vivi ganhava um motivo maravilhoso e digno que era virar imagem no seu ouvido. Virar realidade. Agora fico aqui me perguntando se eu existo mesmo. Porque se não me conto pra você, o que eu sou? Pra que serve? E ainda tem ingresso do Radiohead. E ainda tem esses DVDs aqui. E a cadeira balança com o vento lá fora e quando eu vou ver tô chorando daquele jeito que faz mugidinhos. Amanhã eu vou pro Rio. E vou ter meus pânicos todos. E no final do dia, puta merda. O foda é o final do dia. Sem me depositar em você pra respirar sem rinite. Sem bater meu cartão em você pra ter o descanso de quem pode terminar bem o dia. Eu sei, eu entendi. Só queria te contar. Eu sei que ficou meio Bridget Jones esse texto. Eu sei que nunca é o que poderia. Mas eu amo você. Só queria terminar dizendo isso. Eu amo você. De verdade.
Tati Bernardi

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